Imagine uma instituição hospitaleira joandeína onde as pessoas tivessem maior visibilidade do que os edifícios, onde o carismático suplantasse o institucional-empresarial, onde as estruturas não atrapalhassem o serviço, onde o hóspede fosse acolhido pelo decisor, onde a gratuidade fosse a regra e a cobrança a excepção, onde o usuário percebesse soluções sem preencher ficha, onde o pobre recebesse na hora o possível e depois a surpresa de uma visita em sua casa para dialogar soluções mais holísticas...
Imagine uma instituição mais generalista do que especialista, onde o usuário pudesse ser tanto a mulher depressiva que vem por escutadores, como a criança triste que vem por leite para a irmãzinha bebê porque “o pai foi embora”, como a viúva que vem por solução para as mil goteiras do telhado de sua casa sem porta, como o pai que vem por empréstimo de R$150 para viajar à capital com a filhinha para um exame clínico complexo, como o ancião isolado no campo que não consegue visitar nem ser visitado pela saúde pública para o cuidado das feridas purulentas, como o PSF ou a paróquia, que vêm por parcerias ou colaboração nas pastorais, como o alcoólatra que não vem, mas precisa que alguém vá para ajudá-lo a sair do fundo do poço...
Pois essa instituição está acontecendo e é o nosso desafio, aqui na modesta cidade de Aparecida do Taboado-MS – Brasil.
Aqui tudo é diferente...
Aqui tentamos ser farejadores de oportunidades de hospitalidade e de humanização e restauradores de relações feridas;
Aqui nossa bicicleta segue atrás ou ao lado da bicicleta do menino ou da do operário com 2 crianças na garupa;
Aqui se o telhado da viúva solitária tem goteiras, a gente vai atrás de ajuda ou dá um jeito;
Aqui vamos na mesma igreja que o povo;
Aqui, se um Irmão chega sozinho, o povo já pergunta pelo outro;
Aqui a vizinha, se faz bolo, manda-nos um pedaço;
Aqui quando rezamos em casa do doente que nos chamou, damos uma olhada na panela, que pode o Jesus-doente, ser também Jesus-faminto;
Aqui a gente sabe quanto custa o que come;
Aqui as pessoas nos param na rua e as crianças dizem nosso nome para pedir uma bala ou a benção;
Aqui as crianças saltam-nos para o colo;
Aqui vamos à Missa e já voltamos com dois ou três endereços para visitarmos;
Aqui estamos começando a acreditar que a escuta empática do ferido também cura;
Aqui sentimos consolação porque o Evangelho e o Joandeinismo nos confirmam e nos ajudam a confirmá-los;
Aqui a oração da noite dura quanto necessário e leva nomes das pessoas do nosso dia e dos projetos do dia seguinte;
Aqui quando alguém morre ou adoece a gente fica sabendo;
Aqui nosso prestígio nasce nas casas ou nas ruas dos pobres;
Aqui os visitantes ou hóspedes não interrompem nossa hospitalidade, mas são mais uma oportunidade para ela;
Aqui, mais do que viver a reza, optamos por rezar a vida;
Aqui tentamos acolher cada pessoa com toda sua história;
Aqui suprimimos o álcool em nossa casa por solidariedade com quem bebe demais;
Aqui concluímos demasiadas vezes que a instituição familiar embaralha a cabeça das crianças;
Aqui tentamos não nos prender a nada, nem mesmo às boas obras do dia;
Aqui resgistramos os “milagrinhos” de cada dia para que nem hoje nem no futuro nos assalte a tentação da inutilidade;
Aqui a TV não nos desvia do essencial;
Aqui as circulares dos Superiores são lidas, comentadas e rezadas;
Aqui quando falta a luz ou a água na cidade, ou a net, faltam para nós também;
Aqui nos deslocamos sobre 4 rodas, duas para cada um, e acorremos a qualquer ponto da cidade em 10 minutos;
Aqui muitas conversas externas incluem a pergunta: “o que é Frei mesmo?”;
Aqui as famílias agradecidas às vezes nos mandam fruta ou mandioca do seu quintal;
Aqui o político testemunha que “os Irmãos são muito conhecidos na periferia”;
Aqui tem poucos ricos e não grudam em nós;
Aqui durante as tarefas domésticas evocamos muito nossa infância;
Aqui quando algum Irmão de longe faz aniversário, cantamos os parabéns a duas vozes pelo telefone;
Aqui escutamos sangue demais nas narrativas históricas da região;
Aqui quando os serviços públicos já não podem, a gente ainda pode fazer algo;
Aqui a gaveta do dinheiro é só uma e ao fazermos a contabilidade do mês comentamos os número$ pessoais e comunitários;
Aqui comentamos a Palavra em casa das famílias e ela ganha mais sabor;
Aqui importa o que fazemos, mas importa-nos mais o que somos e ainda mais o que significamos;
Aqui nossos superiores todos, até ao Papa, estão pendurados na nossa parede e em nossa oração;
Aqui nossa castidade é mais divina, nossa pobreza é mais humana, nossa obediência é mais aos pobres e nossa hospitalidade é nossa vida;
Aqui não escolhemos a Palavra, abrimo-nos para que ela nos surpreenda;
Aqui Deus é Pai e Mãe, é Filho e é Espírito Santo;
Aqui ainda há muito por fazer!...